28.7.08

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Desce, como a chuva miudinha, quase não se vê, apenas o suficiente para nos certificar que não sobe do chão...
Em seguida envolve-nos; aí já quase se tem a sensação de que o próprio chão é poroso, e por ele se infiltra _ não, exsuda e por nós acima se infiltra _ esta...crescente frialdade sem rigor de temperatura...mas que aperta quando chega à boca do estômago, e se conseguirmos pensar nisso, talvez o avanço se atrase mais um pouco. Mas o cerco, não sendo premente, é no entanto insistente, como uma melopeia que circula na cabeça, retirando qualquer veleidade de controlo das ideias _ ou da paz de um intervalo daquelas...
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E se não é ideia, mas se impõe, e manifesta-se por sensações _ desgraçadamente _ desagradáveis...com que lido, então??
A semente do desassossego foi plantada por palavra que voou sem dono, sem rédea e sem retorno a redil...
É, é assim que a flecha se lhe compara, ou a pedra que é atirada; nada as consegue aparar; muito pouco há a fazer, pois muito se tem que esperar antes de se poder pensar, sequer, em reparar danos.
E por fora começou, mas por dentro vai tragando espaços sem medidas, ou tão desmesuradamente volumosos que os pulmões parecem atrofiados e aflitivamente reduzidos a ínfima porção de si próprios, tão exíguo é o ar que circula.
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E abrimos a boca dos olhos; a cor do céu!... Como ele fica deslavado; os sons são meros ecos de si próprios; tudo o que se move e faz ruído fica subitamente abafado e sujeito a diferente pressão, certamente, pois até a velocidade se altera; será que passou tudo a existir em " slow motion" ?
Excepto o bater do coração. Esse galopa, forte, surdo, mas ribombando nos ouvidos, com almofadas de plumas a deterem a crueza do tropel. Um gesto, outro, mais outro ainda e...é assim, reparo, que vou conseguir reconstruir-me na fachada do eu habitual, até ter a oportunidade de inventariar os pedaços de mim que preciso de ter contados para manter o dia a rolar, ao sol, à chuva, até a noite vir fazer a mudança de turno e...
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25.7.08

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Fez-me pensar…mas afinal já lá tinha chegado: quando não existe a capacidade de dar expressão _ nomeadamente através das palavras _ a um fluxo de emoções, sobretudo se estas se encontram em situação de excesso, corre-se o risco de (dis)ruptura, que em muitas ocasiões pode desencadear explosões de fúria, ou violência, como até de furiosa impaciência…sobre outros.
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Este é o panorama mais frequente em meios de escassa literacia, pela razão óbvia enunciada, ou seja, não havendo palavras por onde o entendimento passe entre as pessoas, estas não se entendem. Em outros meios, que não os de baixa condição cultural, a violência pode do mesmo modo ocorrer pela incapacidade de estabelecer comunicação, independentemente do veículo; não é precisamente a falta de palavras que se fará sentir; possívelmente faltarão os gestos, ou melhor, o seu significado _ positivo _, ou tão só as presenças …
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Assim, é fácil de compreender que capacidade comunicativa não tem só a ver com a dimensão do léxico ou capacidade linguística; talvez tenha mais a ver com uma qualquer ma eficaz capacidade de dar expressão ao que se sente, i.e., traduzir através de uma ferramenta que servindo de filtro, delonga o processo de reflexão, fazendo a ponte entre causa e efeito (como a verbalização, sendo uma mentalização, a faz entre sensação ou emoção), não só prevenindo os acessos irracionais de violência _ em direcção ao exterior _ como até aqueles que, por excesso de constrição ou mera repressão, conduzam a actos autodestrutivos ou de efeitos perniciosos a prazo, como sejam as manifestações de... patologias.
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Então expressão será o fluxo de energia gerada e gerida de dentro para o exterior, de forma harmoniosa, e que tem a ver com a capacidade criativa, que é também uma necessidade pois dela depende que aquela relação seja equilibrada e satisfatória, pelo menos quanto à sua existência nesse sentido: dar forma a…de dentro para fora.
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Em coexistência com o fluxo acima descrito, deveria haver a outra fase correspondente, uma outra metade do circuito, representação em movimento circular de recepção de um fluxo de energia complementar da outra, ou o seu reflexo em influxo, para uma situação de equilíbrio ou harmonia, em contínua hetero-alimentação.
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Em sua ausência, ou de quantidade/qualidade suficiente ou satisfatória: escreva-se, desenhe-se, pinte-se; cante-se, toque-se/faça-se música, dance-se…borde-se, cozinhe-se _ seja o que for _ …dê-se ouvidos e mãos e corpo… _ o que seja mais apropriado a cada um _ mas que cada um saiba encontrar o que satisfatoriamente o faz mais feliz…ainda que seja só para ser …menos infeliz!
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23.7.08

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É ténue, muito ténue, a linha entre a suave desvanescência num lanço acima do ruído que escolhes deixar para trás de ti e, a sensação de perda do controlo da realidade absoluta _ sim, como perder o pé, se te aventuras mar adentro sem controlo das areias que, matreiras, vão escorregando por aí fora. A única diferença é que não há sobressalto, nem ressalto repentino e espontâneo a trazer-te de novo à tona das tuas medidas. Não: tu resvalas mansamente no pensamento da paz, exactamente como acontece com o de terror, e que continuas a ver como de longe, e como não acreditando que é a ti que acontece.
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De ambas as ocasiões tens o pensamento, quase tens o conhecimento _ pois te desdobras em observado e em observador _; mas falta-te a força de seres o agente do facto em si: és apenas o seu objecto.
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Mas só são assim idênticas na tua primeira vez: a partir daí, tu sabes, e para além disso, já intuis, e podes distinguir o que é bom daquilo que já não te faz sentir bem; é como a questão da maçã do conhecimento: aqui, apenas um dos lados traz verme _ e não é o que te leva, melhor, eleva aos píncaros das instâncias onde redimes tudo aquilo que não devera existir, porque deixa de existir, porque deixas de existir, porque provas a unidade _ e esta é, só e apenas, a ausência de conhecimento...
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E não há susto, nem linhas a dividir, nem eu ou tu ou eles: há, simplesmente, a fonte do não-haver...
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21.7.08

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É… Por vezes, de longe a longe, mas com mais frequência do que gostaria de admitir, acontece-me: vou deixando amontoarem-se os “ses” e, claro!, que outra coisa haveria de esperar: acabam por pesar tanto…que não avanço.
E já não falo daqueles ses que ficaram para trás! Não, esses só existem para algumas pessoas, dadas a essa ficção, sem se darem conta de que transtornam assim a sua vida. Eu nessa já não caio. “Ses” de passados são mais perigosos do que sal na comida!

Falo dos ses que se atravessam, cruzando o presente, assim: entre este passo e o próximo…
Esse é um dos motivos já identificados dos meus atrasos…”no caminho”, ou nas pequenas etapas que se prenunciam

Há um outro tipo de atrasos em que, de certo modo, também já me sinto “especializada”: a criação _ não deveria ser mais abertamente franca e chamar-lhe mesmo cultura? _ de alibis. Esses, então, regra geral acontecem junto a encruzilhadas…e não, nem bruxedos são para aqui chamados, nem me valeriam. O certo é que por vezes lá acabo por “montar acampamento”, não sei se para reunir coragens, se para dobrar escolhos ou tão apenas tentar desdobrar-me nas escolhas…E às tantas por lá fico, esquecida no tempo, mais do que do tempo. E é então, comprovadamente, que o tempo toma conta de mim.
O que dizer, mais? Mea culpa, mea culpa…
Será que vou ainda a tempo de emendar-me??

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20.7.08

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Sim, eu sei, é ainda e como quase sempre …o sonho…e o assunto pende, bem leve, suspenso, tipo luminária oriental _em formato popular: como balão de S. João _ e eu não vou fugir…; até uma conclusão, pequenina que ela seja, este “agora” vai tê-la… Vejamos: vou ser altruísta e pensar global _ não, que é moderno demais, até já decadente (deve haver palavra nova prestes a emergir para substituir essa, que está ficar caduca, de tão usada); antes cósmica... sim, esquece o global e fica essa.
Ou vou poder pensar em mim, ínfima egoísta? E se sim, se consigo ultrapassar e engolir esse nozito de escrúpulos atravessado na garganta, como vou atrever-me a configurar o resto do meu ... futuro?
Vou ter que prever scripts, cenários e figurantes ou, em outra perspectiva, formatos e layouts, para saber exactamente como os quero rematar, abrilhantar, com os meus desejos?...

Ah, descobri! E foi bom ter vindo, a depositar-me por estes aquis, ainda que esparramando-me um pouco mais do que é bonito; mas, adiante, consegui reduzir esta agoniante irresolução a apenas uma dúvida de resolução parassemântica: deverei pedir que os meus desejos se aproximem das minhas necessidades…ou que as minhas necessidades se aproximem dos meus desejos?

Quando tiver decidido, virei depor o meu alívio acerca dessa questão, para então se ver se terei que preocupar-me em ter, sequer, desejos a formular…
E agora, uma pausa para ... sonhar, não!, por favor.
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19.7.08

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Devagar. É d.e.v.a.g.a.r que chego. Não tenho bem a certeza de como dar forma ao inefável _e ainda por cima o que "tão!" o é, a nível do pensamento. Coisa mais etérea dificilmente se pode arranjar como matéria _ acaba por ficar engraçado.
Novamente dou por mim a tergiversar; no que me diz respeito, bem cá dentro, tem sido muito assim, montes de vezes. Certamente o equilíbrio à prefiguração que já ouvi terem de mim _do lado de fora.
E a matéria é o sonho. Não de que material se faz, nem sequer se tem sexo, como os anjos (eu até acho que alguns podiam ter, se se quiser…).

“O sonho comanda a vida” tornou-se um lugar-comum na boca de bastantes pessoas; mas o que deve fazer quem não sabe o que sonhar, tal o peso da responsabilidade no conceito que tomou conta de si: o mundo será como o sonhares…
Pois a verdade é que há sonhos, e sonhos…e sonhos! E ainda o medo de desejar…
”Beware of what you wish for…” não é algo de desdenhar…como adágio soa a algo mais efectivamente ameaçador do que temáticas de scarymovies. E depois há aquela malfadada perseguição do complexo de culpa que se enfiou na cabeça dos condicionados dentro das doutrinas judaico-cristãs…

Mas valha-nos o “complexo de disneymania”, a vozinha que sussurra em melodia de filmes antigos “when you wish upon a star…”. E então, voltando ao início desta serpente que se autoengole: vou desejar…o quê??
Será que vou conseguir pegar no sono, com esta pendência? Bem, não é nova…vai acontecer exactamente o mesmo que das outras vezes…

18.7.08

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...E o espírito desceu sobre as águas.
É surpreendente como uma frase simples pode criar um cenário psicológico condizente, ou antes, conducente a uma sensação de serenidade.
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É uma velha frase, de velhos livros, estudados por antigos se não velhos estudiosos _ e isto porque, supostamente, mas afirmam eles, tem a ver com a presença divina, ou antes, uma das suas possíveis manifestações...entre o mundo físico, ou material _ ou o mundo dos homens...
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Não vou debater sobre as formas da presença de deus/Deus/deusa/deuses neste instante; a presença divina pode, tanto quanto sei, até ser o bater do coração sobre, ao lado, ou através do outro coração _ não sei é explicar bem. Por isso não vou também debater-me quanto a encontrar explicações precisas para a localização de tal "lugar".
Sei é que a serenidade da presença divina ocorre e é manifesta quando o espírito desce sobre o coração _ e não preciso de saber qual deles é. Eu sei, e é manifesto esse saber que não admite dúvida, logo, anti-saber.
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E também sei que, não sendo uma deliberada construtora, tenho arranjado maneira de configurar a escalada da minha vida em redor do oceano, das águas que amaciam os meus dias, mesmo entre a brusquidão de tempestades ou ventanias, que me ferem os ouvidos ou me deixam sem respiração...
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E quando o espírito desce sobre as águas e o espírito desce sobre o coração tudo fica bem, e se eu conseguir acreditar forte forte e lembrar-me de não esquecer, a perder-me no bem-estar próprio mais do que a conta _ o mundo ficará melhor, pois o meu mundo é o mundo de todos...e como eu o faço e vivo, assim o sonho para ser...
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17.7.08

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Vieram de roldão.
Numa vaga súbita_ sétima onda, certamente_, mãe da respiração ondulada e, por tradição, assim sincopada que regula os circuitos de vida líquida neste nosso planeta.

Os pensamentos que chegaram, esses, não são, não os quero de cá. Nem os que desabrocham como a flora em clima equatorial, nem sequer os que se multiplicam como alguns exemplares de fauna selvagem. E muito menos o são aqueles a que me refiro neste momento: os pensamentos-parasita, aqueles que surgem de rompante, lançam ventosas ou esporões, parecendo geneticamente apetrechados para “pegar e não largar”.

Aconteceu tal, certamente, por me encontrar distraída, demasiado envolvida nos ruídos a que tenho que atender, triar, processar, antes de ter a oportunidade de me refugiar na “ilha anti-assimilação”, onde me acolho, sobretudo, a refazer-me, a ser o não-resto.
Claro que com mais tempo de recolhimento, de desatenção consciente enquanto me dedico ao não-querer ou ter-que ocupar, o efeito-lótus é mais eficaz.
Eu andarei mesmo a perder eficiência? Isso não é tão grave quanto perder a eficácia…

Em assombroso repúdio das tais tradições, àquela onda seguiram-se outras, em crescendo de grandeza tal que, ao estirarem-se, adquiriram progressivamente a transparência total, e daí à diluição_ mais: ao desvanescimento
_ foi um ápice.

Tudo está bem.
Nada de incómodo se prende na superfície lisa e brilhante da mente; nada se cola, sequer, na polidez mate que, a pouco e pouco, se ilumina em leve fosforescência.
As pálpebras pedem já para baixarem, cortinado preferencial à emergência da luz suave…

16.7.08

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Colhi a surpresa com a mesma mão com que afasto, almofadando-a, a palavra dura, resgatando o equilíbrio que alguém cuida de fazer subsistir na ausência da minha atenção.
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É certo que já consigo, um pouco melhor, treinar o vazio de expectativas, uma pequena armadilha ao caminho, uma ligeireza de salto por sobre precalços que poderiam esconder-se...e assaltar-me. Assim, delongo os pequenos prazeres, tornando-os maiores; escamoteio algumas desilusões...evitando deter-me nos passos pequenos.
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E a força de retomar a estrada aplaude os pequenos ganhos ao melancólico hábito de esperar que "outros" sejam meu motor de arranque, meu alibi de motivação para o que se quer ter realizado, independentemente de volições próprias.
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E quanto ao resto...é a fatia maior do tempo de ter os olhos abertos: o sonho não é dirigido, mas o sonho dirige-se sozinho aos lugares prismáticos de onde me relança no arco-iris de sentimentos que enfeitam e coloram as pedras sob os meus voos...mesmo a pé.
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15.7.08

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...Chegou a hora de vir ao outro lado...sem vestes invocatórias, sem mãos abertas ao dia, sem...
É o meu lugar de taça vazia, escorridos os momentos que me trabalharam o esforço de construção, abandonados os cortinados sobre fraquezas ou receios que a ninguém convém mostrar.
Pois as queixas fragilizam-nos, aprendi, e o jogo do contente era um mistério da boca da minha mãe.
Não, também não é a hora dela; agora todas as horas são minhas, não existem outros impérios a necessitar de meus cuidados ou a construir-me culpas.
Também não seria indicado deixar que filhos tivessem poder sobre tal recanto, não é verdade?
E a intimidade sempre é algo bem próximo de meu cerne; deixo adiar-se qualquer preocupação sobre as iniquidades que o tempo por vezes prepara sobre o sentido de dignidade de alguns...também não me vou deter sobre o assunto...
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A fluidez é o meu prazer maior, nas palavras como nas sensações; vivo a passagem líquida do que não se fixa...; eriçam-se-me os sentidos nervinos à passagem leve da sugestão das ideias que não têm caudal forte, nem necessidade de diques, nem querem saber de leitos, ou margens, de curvas ou de...cais.
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Vou cobrir de noite qualquer ponto cardeal ainda acordado; vou arrastar do caminho algumas estrelas para que desarranjem o céu, e me ajudem a perder-me no veludo; vou seguir...

14.7.08

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"...E no centro reside a harmonia, T.*, representada também como a Beleza."
E hoje a beleza veio banhar-se na plenitude do dia maduro, por entre a luz ainda bem crua, sem a hesitação de qualquer névoa e em demonstração plena das cores mais abertas, ainda por cima em alternadas tiras de cambiantes, que este nosso Atlântico consegue exibir.
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Um verdadeiro festim que as sereias _ apostaria que contaram ainda com a conjugação de algumas das nereides que se escaparam das marés mais... retintas do rio_ vieram fazer em plena época de "engentes" na borda das águas. Festim tive eu, que dei aos meus olhos alimento para muitos momentos, agora refrescados, da minha "bolsa" de paz e beleza, espécie de retiro-de-bolso ou a tiracolo, que trago comigo, como asmático que se mune de sua bomba s.o.s.
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E não preciso de evocar Platão para reforçar-me na validação das minhas sensações; sobretudo, não preciso das palavras para me justificarem o que se passa quando a beleza me atinge em setas de cor e luz: só as uso para me reler na surpresa que de cada vez me toca, independentemente das vezes em que tal ocorre.
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A minha gratidão, como a minha súplica, são a minha prece; ela seja aceite...
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13.7.08

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...E deixa-te conduzir.
Ganhar a disposição de perder o controle, é algo tão atraente em certas ocasiões que, como dizem os anglófonos, deve ser pecado. Para além do facto de a explosão emocional poder vir a tornar-se crime _em situação extrema _, até é verdade que nem sempre é bonito de se assistir... a algumas dessas exteriorizações.
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Pecado não é conceito que exista fora das nossas mentes condicionadas pela religião cristã; no entanto, o pior que se possa fazer em termos da ética religiosa de um budista será perder-se no abismo da Ira.
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Não me preocupa pecar por ser emocional; preocupa-me a irracionalidade do controle mental ao milímetro; preocupa-me a camisa de forças auto-imposta dos carris pré-alugados antes mesmo de se porem os pés fora de casa...
Será que um dia me verei rejeitar esse passo: o passo fora da soleira, o que me divide dos momentos entregues à minha medida de comoção, sentimento, atracção, ou, porque não?, aversão e repulsa?
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E se continuar a apaixonar-me pela pequenina flor junto ao muro ou no quadrilátero de relva no meio dos edifícios, tenho de olhar em volta, a ver quem me viu baixar-me e acariciá-la?
E se alguém me ouvir cantar para além da música entre as orelhas, ou a saudar a gaivota que quase me rasa...e se parar a observar-me enquanto sigo, fazendo de conta que não reparo que sou reparada? Claro que continuo! É essa a minha medida de emoção, a medida de crescimento que quero continuar a garantir-me: a minha promessa de libertação _em mim_ é a resolução da libertação do que me rodeia...
Assim seja, assim se faça...
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12.7.08

...E porque somos frágeis, a nossa força é escudo e arma recusados; e é a fé inabalável no sentido primário...da elevação do espírito sobre as fraquezas físicas.
..."Solve et coagula"_a simplicidade do não-mistério_: fortalece o espírito, fluidifica o corpóreo e material ou: disciplinando o corpo elevas o espírito...; mais simples ainda: fortalece o corpo, flexibiliza a mente. Ou tudo vice-versa...
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Em todos os pedaços de matéria do pensamento este conduz-nos aonde por vezes não gostaríamos de ir. De outras vezes, se não pensarmos obsessivamente, talvez tenhamos a sorte de sermos conduzidos a um ponto de choque como o da pedrinha sobre o charco. Talvez consigamos repetir o feito...e talvez se passe algo como as ondas de interferência, e a nossa ideia se reforce para além de si própria...e...
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Mas o acto de pensar está à partida comprometido com aquilo que se quer ultrapassar_não se forma ele na construção do que já passou? Claro que a ideia não é original, mas isto de querer avançar sobre pedaços que afinal estão por trás de nós...não ajuda, quando se tem que ter os pés, e os papeis assentes em datas, calendários, previsões e planos...
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Pois, tanta gente acreditou tanto tempo que a terra era plana...sei que estou a fugir ao assunto; melhor: não quero ter assunto. Quero respirar do fundo desta linha que me dói quando tenho que separar águas, ou territórios, ou senhores-ditadores de terras de césar e de ... não sei...
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Quero voltar às estrelas, quero a espiral de luz empoeirada que se faz ponte entre nós; quero a lividez brilhante da lua que se despedaça em milhentos vidrinhos minúsculos na proximidade da terra-mar; quero a macieza do escrínio que a noite fabrica para me oferecer as jóias roubadas à outra metade do mundo...
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E enquanto por lá as cores são vivas e abertas as feridas que não gostamos de ver, quero ficar a sonhar, sem sono e sem sonhos, sem ter que saber que ainda vou ter de acordar...

11.7.08

A noite é o jardim das estrelas; elas são as flores nocturnas, imensas no aroma de liberdade e... aconchego na cumplicidade. São o símbolo da notoriedade...mas na realidade são a lição da humildade mais inequívoca: elas estão por aí de noite como de dia; não se vestem para o jantar, ou para uma saída nocturna; elas são os luzeiros que ninguém vê durante o tempo todo que aquela arrogante anã-vermelha gigante se deixa expôr a nossos olhos... mesmo quando disfarça a sua aparência com umas nuvenzitas_ ou nevoeiros mais ou menos cerrados, como tem andado a fazer ultimamente.

E esperam, sempre esperaram, como esperarão mesmo quando não dermos conta...não querendo saber de figuras ou limites como os homens, pobres criaturas desamparadas se não conseguem dar forma às suas prefigurações, nem que seja espelhando no céu a sua aversão a espaços livres_ eles tinham mesmo que querer pôr ordem no caos que é o seu mundo, e pensaram consegui-lo cativando as estrelas, livres e longínquas, nos cercados que lhes criaram em redor, chamando-lhes_ a elas!_ constelações!

Mas hoje as estrelas foram luzeiros que abrilhantaram, pisca-que-pisca, o dia: inesperadamente irradiaram, por aqui e por ali _ por entre afazeres comezinhos e andanças por humildes e por demais conhecidos trajectos _ sorrisos, encontros, efeitos e afectos deram-se mãos, olhos, abraços, lágrimas até!...

A velha magia acordou e novamente fez das suas.Lançou dados de imprevisíveis números nas contas certas_ e nem sempre favoráveis_ dos monótonos balancetes que são a prosa dos dias...para quem respira fundo apenas nas reticências da poesia livre de alinhamentos...

E a lua sorriu cúmplice, pois não foi ela quem me chamou desta vez; apenas ficou sossegadamente olhando de esguelha, crescida o suficiente para não temer sombra...nem luz.

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10.7.08

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É como em tudo: o 1º passo é o início do caminho...Mas também li: se a tua mente já viu onde queres ir, já lá chegaste...Ora eu é que não vejo aonde vou...vou, simplesmente, deixar-me ir, treinando cada vez mais _ e esperando que isso signifique também "melhor" _ o jogo da entrega, até que ele se me entregue como uma pele minha, sem fronteira de aderências...
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Que me aprenda e que se faça... eu própria, entregando-me ao caminho; cada vez mais confortável _ não indiferente _ mas plena da fé que convoca a ausência de necessidade, como aprendi a ausência da dor por separação...; o equilíbrio confortável de uma plenitude resistente a traições quer de desejos quer de mágoas...; o jogo feito conquista, o jogador feito sorte, destino, fado...: E.N.T.R.E.G.A.
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