27.8.08

.
.
.
Saudades…
Saudades, sim. Deste, daquele, daquela, daquilo, de então…ah, mas sobretudo, de m.i.m! Ou melhor: de mim então!
.
E é isso que na realidade leva (quase) toda a gente a confundir-se e atolar-se num chamado e supostamente doce sentimento de nostalgia, de perda, que não é mais do que uma hedonista e egoísta sensação, quase tão vã e perniciosa, na sua ignorância e inconsciência, como a inveja, aquele monstrinho verde que morde as entranhas de quem não quer admitir-se presa de uma forte admiração por outrém…no seu negativo.( E Deus me livre de ser assim “admirada”! ) . Mas não vamos por aí, que é longo e perdido esse atalho.
E então vou tentar explicar um pouco melhor, talvez mais caridosamente, o ponto de vista que aqui defendo. E porquê? Simples: porque sofro quando vejo sofrimento que considero desnecessário _ na maior parte dos casos, claro _ na forma de lidar com o "passado".
.
É certo também que reconheço ser um acto de rebeldia a minha rejeição do uso comum dessa palavra tão acarinhada como símbolo emblemático da “nossa” cultura. Eu também concordo que é bonita: ondula emoções esquivas pela sibilante adiante, presta-se a ser saboreada…E eu digo isto porque gosto de poesia e, precisamente, saboreio os aspectos físicos e musicais que algumas palavras se prestam, plasticamente, a arvorar. Mas causa-me uma certa impaciência o tom auto-mortificante com que as pessoas se agarram, pior, se colam a factos passados, incluindo, nesses flashes de inexistências intransigentes, a presença de outros, quando se deviam concentrar na própria consciência das sensações que esses instantâneos _ por vezes autênticas reconstruções de verdades que vão mudando de perspectiva consoante as luzes de enfoque..._ lhes provocam.
.
Assim, alguns ajoujam-se sob o fardo de autênticos "cadáveres" de memórias a que se agrilhoam e que lhes tolhem o passo em direcção à vida, e que nem sequer são, geralmente, as memórias queridas que gostariam de ver permanecer... mas que não deixam ficar...
.
E então há os que simplesmente recusam a si próprios e às então queridas memórias a oportunidade de terem um futuro, fazendo-as "presente"! E esquecem-se de olhar em frente, sempre virados para "trás", mergulhados em sombra _ por culpa das tais "saudades"...
.
Na realidade, o que sentem é a falta de como se sentiam … ou os faziam sentirem-se, em determinada altura da sua vida. Simplesmente isso. E sofrem, com o que dão por final, se não finado.
.
Mas a memória é isso: algo que permanece… uma verdadeira prenda , sempre à disposição de ser recriada... E poderiam então verificar que o que davam como passado e acabado, se encontra nesse i.n.s.t.a.n.t.e com elas, na sua p.r.e.s.e.n.ç.a, e talvez acordassem para o significado real que as palavras teimam _ às vezes sem resultado, e sem culpa própria _ transportar, se nelas atentarmos verdadeiramente, se usarmos a própria reflexão, abdicando um pouco mais do seu uso leviano e de frases feitas, que acabam por entregar vazios, perdendo-se nestas trocas entre bocas e corações e mentes, sem serem pontes de s.e.n.t.i.d.o.s entre as pessoas…

.
.

23.8.08

.
.

É bela e repousante a ideia-teoria _ daquelas que o Oriente antigo ainda consegue oferecer como algo novo a quem se levanta por onde o sol se deita _ de que o Universo segue indiferentemente o seu curso, sem escolhas e sem desvios, num movimento que se desenrola harmoniosamente e em direcção, se tal fosse possível, a um destino de Harmonia; por conseguinte, quem consiga “apanhar boleia “, na capacidade de viajante que dele participa, seguindo o rumo naturalmente, com o mínimo de conflito e, portanto, de atrito, viajará na mesma conformidade a essa harmonia…Lindo, não é?
.
A consciência e, sobretudo, a deliberada adesão a tal filosofia impõe opções de actuação e que têm a ver com intervenções tendentes a restaurar algum do equilíbrio que notoriamente falta ao cenário dos dias conforme se passam _ toda a gente vê, não é verdade?
.
Pois quanto a mim, um passo decisivo, pelo seu peso (terei que invocar algo como o próprio Genesis??) nesta contínua, muito deliberada auto-construção do quotidiano próprio, é a atenção ao peso e valor das palavras . Considero essencial e básico que se cuide da escolha das palavras. Há quem lhe dê nomes de ferramentas de auto-desenvolvimento, terapias com fundamentos psicológicos. O rótulo certo não é importante; o modo como é usado é a base do seu efeito, seja treino autogénico ou aplicação mântrica. Também lhe podem chamar, muito simplesmente, pensamento positivo(aqui reforçado na expressão) ou pensamento mágico(como já ouvi que denominam em áreas da psiquiatria...) _ aí já enraízam muitas superstições. Mas eu não sou supersticiosa: dizem que dá azar.
.
Eu quero pensar em construir a minha Sorte. Sei que conhecimentos de velhas culturas se transportaram ao longo dos tempos, mas também há conhecimentos que existem sem conhecerem o gosto da dúvida e assim se afirmam. Sei _ oh, e como! _ de quem se ganhou, em territórios próprios que mapeou por caminhos solitários mas que asseguram que é assim, e impõem-se com a certeza da bússola interior. Os dias são feitos de dúvidas e incertezas, desafios, perdas e ganhos; portanto, também têm de ter lugar para certas…certezas. E escolho… não escolher algumas palavras dentro de uma área de segurança, da minha proximidade… e fazer de outras a estrela dos meus dias… para que continuem a ter luz, e a fazerem-se para conhecer e, grande ambiciosa!, dar a conhecer…luz.
.
.

19.8.08

.
.
.
Deixei-me diluir no mar sem nomes; fiz-me esquecida de palavras que pintassem dias de aguarelas por demais desmaiadas.
.
.
Dissolvi as emoções perante os silêncios sem resolução que não as souberam enfrentar...
Despedira o mar, despedira-me do centro da palavra, alma do sentido da realidade sonhada
.
.
Reneguei o sonho na despedida da inocência da ilusão permitida.
Recusei a palavra sentindo-me rejeitada pela graça da entrega ao nome.
.
.
Entreguei-me à recusa de mim em outro... eu recusara a ilusão de outro, dar-lhe assim vida.
A palavra não veio e não a chamei; aguardei ainda que me gritasse no centro do corpo, que me garantisse que o sonho continuava a prender-nos ao papel dos dias iluminados pelo despertar na luz dos olhos fechados.
.
.
A inverdade submergiu tudo. A realidade não é transparente, a sua opacidade reafirma a verdade do sonho.
Vou-me sonhar sonhada.
.
.
.
(30/08/07)

18.8.08


.
.
Desço por mim abaixo e…
Não, desta vez não o vou fazer. Deixo passar o baque surdo da hesitação a bater no fundo do último escrúpulo, ignorando-o e dando-lhe a entender que desta vez não lhe dou cobertura, muito menos primazia _ e continuo.

Chega de rebates de consciência retardada, mais do que atrasada, antes pretendendo atrasar-me a custo de cadeados de chumbo em volta do tórax. Ora ainda bem que têm sido um pouco abalados, remexidos talvez mesmo, a ponto de quebrarem nos elos que a ferrugem _ porventura a mais antiga _ mordeu

Poderá acontecer que ainda arraste alguns, pois que os mais recentes elos não quebraram, aderem _ e pesam _ ainda. Não faz mal. O que não me mata faz-me mais forte. Todos os cadáveres de mim que ficaram pelo caminho o atestam: viram-me continuar a avançar.

As fraquezas deram lugar a vontades que, se não são férreas, ainda bem! Pois agora sei que o mais importante é evitar a rigidez.

Flexível na mente, flexível no corpo _ poderei convencer os dois a colaborarem e reforçarem-se? De estratégias se fazem as histórias de quem porfia, mas anda.
Wu Wei aqui, assim ou assado ali…

Assim seja, assim se faça… para o bem de todos nós.
.
.
.

12.8.08

.
.
.
O homem arrastava a solidão no bater soturno das chinelas gastas, o cheiro forte transpirando de humanidade calcada em depósitos fechados e esquecidos da pureza do sol claro, da firmeza acolhedora de uma terra-mãe e, mais ainda do que de tudo o resto, da doçura líquida que sozinha limpa os corpos até à alma, que nem uma muda de roupa lavada.
.
.
Havia certamente o mar, ali tão perto, mas que cobrara outras duras distâncias em moeda de sonhos desfeitos, e da água apenas lhe deixara o salitre, em polvilho sobre os cabelos sombrios, de mistura com a areia levantada por ventos alheios à sua música.
.
.
Talvez sobrasse ainda algum nos sulcos do rosto onde, no entanto, já não chegaram a tempo de encontrar lágrimas, luxo de quem pensa que sente, comprazendo-se em amontoar sentires, com chão e tecto e paredes.
.
.
.

11.8.08

.
.
É uma febre que te apanha. Não há engano, sabes perfeitamente que foste apanhada, respingada, contaminada.
De nada serve lembrares, em tua defesa, o enleio costumeiro a veres desvendado qualquer leve indício sobre interiores que não gostas de dar à vista: falta de defesas é o que demonstras, perante este acesso febril, sintoma certo de fraqueza do sistema que pensavas andar a enrijecer, entre treinos de vontades e complacências…mal-medidas.

Não serve de muito tentares colocar a balança a teu favor _ se queres mesmo fazer um balanço a frio da questão _ invocando o humor de circunstância, dando-lhe nome de personagem mitológica, quando sabes perfeitamente que abriste portas a que factos tais _ ou circunstanciais... _ apenas comprovem que és tu! quem tem descurado a maneira certa de escreveres ou corrigires a vida: olha como os nomes conferem!! Vá lá, conceda-se-te que não é exactamente um protagonismo no momento, mais um sinal de atenção _ como a tal febre!
Daí que talvez o tratamento não tenha que ser algo de terrífico ou radical; pois, quanto menos invasivo, melhor! Mas afinal, como te atreves a mencionar sequer essa palavra, se a questão se coloca precisamente por uma questão de invasão…de espaços, tão ferozmente resguardados, até há tão poucas…peles, e agora tornas-te, do pé para a mão, em verdadeira vira-…pele!!!

Também não se vive fugindo à vida; talvez as tais aprendizagens que constroem o crescimento se façam sobre as curvas e contornos menos angulosos de planos traçados à mão levantada, mais sensível e intuitiva que os rígidos traços de réguas e esquadros _ eu já suspeitava que quase tudo se desenrola em espiral. Vou, portanto, acreditar nisso; é uma ideia que o momento me traz, e enquanto germinar em ramos _quiçá flores, se chegar a ser ambiciosa _ que por aí vão estendendo sombra, será a minha escolha.

Boa altura para a tisana de recurso: sacrifiquem-se as inocentes flores ao desmando de quem pretende agora com elas pôr cobro a febres de…viver.
.
.


8.8.08

.
.
A noite não chegou…roubou o dia e porventura vangloria-se, pairando por aí, por fora da janela, deixando apenas alguma luz para se poder verificar que, afinal, nada fica realmente para ver no apertado embrulho do nevoeiro cinzento.

A noite não chegou…mas também o dia não se despediu; mal sei se não apareceu, simplesmente, ou se foi desaparecendo sem rasto de intenções que marcassem lugar no passeio das horas sobre os mais-que-fazer habituais.

A noite não chegou…apenas enviou um silêncio de encomenda, não genuíno e cristalino _ nota-se logo, pois que permanecem as sombras de sons esganados sobre o piso humedecido lá de fora, entre os rodados de máquinas invisíveis _, como um prenúncio de algo que ficou por saber.

A noite não chegou…mas, de algures, enviou já, também, as longas e ondulantes mortalhas de todos os feitos que o dia deixou esquecidos para trás de si, quando se desvaneceu sem palavra ou gesto de adeus.

A noite não chegou…mas o manto violeta que se vai estendendo transporta entre aglomerados de névoas alguns hesitantes filhotes de sois, desprovidos de força, mas que tentam imitar o cintilar de vaga-lumes…talvez sejam eles os lanternins de silenciosa carruagem que passa a buscar a noite…ou foi o dia que a roubou?
.
.

7.8.08

.
.
Hoje o mar veio a banhos, fazer férias. Deixou-se inclusive contaminar de falta de limpeza, de desordem na chegada das ondas, enrolando-se à toa e sem direcção definida nos corpos das gentes que as acolhiam.

Encheu a praia do reboliço de espumas tintas de sobejos dos lodos que, de mistura com o sargaço, também decidiram vir espreitar os céus. Estes, por sua vez, nem cor com nome de si mostraram: entre nuvens arrogantemente acasteladas mas votadas aos cantos, desfiavam-se em mantitas mal alinhavadas das faixas de rastos indefinidos que por vezes se entrecruzavam em brancos sujos. No entanto, todas contribuíam para que ainda pudesse saudar um sol pálido, de olhar um tanto turvo, como quem não sabe de que latitudes se vestir…

Enfim, foi o dia possível e a praia recebeu o mar sem grandes efusões, nem bandeiras hasteadas, deixando o vento escasso e pusilânime tratar do caso, ondulando a esmo algumas das toalhas que tingiam o areal patinhado.
.
.
Porque tarda tanto o tempo das gaivotas?!?
.
.

6.8.08

.
.
Saí atrás da ideia de não me render à inacção.
Primeiro voguei na estranheza do piso e dos ruídos tão perto, tão perto de vertigem. Obriguei o movimento a ir atrás do olhar e a prosseguir no rasto de cada passada. Detive-me na vibração arrepiada das areias que passaram sob cada sola mas segui atrás do barulho distractivo das folhas da última árvore, roçagando-se em inocentes afagos mútuos que sussurraram a cantiga suave em que respirei, mais à vontade.

Estaquei quando os olhos subiram na direcção do lado ensolarado da copa, abri lugar a uma respiração mais funda, saboreei o toque de beleza da florinha aberta em cinco pétalas de adorável frescura rósea _ e o verde em volta do mais pequenino botão sossegou-me.

Retomei o avanço, agora já sem cuidar dos riscos das pedras do chão, o ouvido mais treinado a separar os sons provenientes dos meios naturais como dos artificiais. Entretanto, já quase chegara: tinha-se-me desvendado a finalidade última da minha saída e nada mais pensava procurar para além dessa agora conhecida demanda, mais importante do que qualquer outra primazia anterior: ia ouvir a música da mais longínqua onda que o oceano guardava para mim!

Tudo o que ouvi, atravessei, olhei, me olhou, consta como pálido figurante no quadro maior que o dia pintou então em mim _ e só cerrou a caixa de cores e pincéis quando a ouvi: sétima sobre sétima até perder a conta e não haver números que chegassem _ suspendi-me no canto que nenhuma sereia seria capaz de entoar: o som da onda mais longínqua viajou até mim…e nela eu viajei para além de mim.
.
.

4.8.08

.
.
Não há ausências; apenas espaços vazios, sem fronteiras de ir ou vir, por vezes sugerindo na sua quase cegueira esbranquiçada leves ondulâncias semelhando mapas suspensos de ilhas encantadas em brumas diáfanas, nunca atravessadas por barcos que se perdessem, ou espantos de fantasmas por domar, nem viagens escorrendo nostalgias ou lágrimas de rios sem leito, sem sulcos verdejando bolores…
.
Não há ausências; apenas ecos de finíssimos fios de significados pervertidos; de rendas de gestos nunca evocados, do quase calor de palavras perdidas nos territórios onde aves de eternidade escolhem pousar…
.
Não há ausências: eu, tu, tudo e nada, coexistindo na paz que nos precedeu, latente de inocências e desvarios, com pressa a anunciar-se como destino sem presenças, sem princípio, sem fim.
.
.

3.8.08

.
.
Intensidade…
Sim, meu namoro é constante. Paixão obsessiva de um ser de água condenado a completar-se no fogo. Não há dia que amanheça em mim, antes ainda da aurora nascer na luz das pálpebras, que o meu desejo não desperte e não se volte na direcção dessa…cobiça.
Não, não se trata de porfia de amor-não-correspondido. Apenas…desencorajado, assim que, logo atrás, a razão abra apenas um olhar a dar-se conta e…

Ah, viva o entusiasmo!!, sim, mas é só em breves instantes que ele consegue impelir-se, acompanhar-me no impulso que logo salta e …mal pouso o pé nesse elevador que célere me conduz ao plano dos enlevos … pronto!: soam de imediato os alarmes _ e é só descer por aí embora, carregada com o desapiedado lastro da noção inculcada a golpes de dor, repetida vidas e vidas sem contos, de que entusiasmo é exagero que pagarei caro, mais cedo ou mais tarde e com juros redobrados. E de quê ?? Pois, o mal é que fico sem querer saber. Os vestígios de amargos venenos amordaçam falares ou tentos de raciocínios onde largos paredões não se deixaram abater. E enquanto essas cidadelas de freios não cederem a cerco de convincente conquista, formular desejos é…uma canção.
.
.

2.8.08

.
.
Resvalo na contagem decrescente das batidas de um coração lançado em antecipação do instante de parar... junto à janela do não-pensar.
.
Paro então; simplesmente, não conto; canto junto ao portal da música das imagens que acompanho num olhar que não usa pálpebras nem cortinados de comparações, nem nomes ou etiquetas retiradas de quartos ou armários ou gavetas de usos anteriores.
.
Sobretudo, deixo que o movimento me acenda em cada tonalidade que me abraça; em cada toque de sonoridades a pele de muitos momentos decapa-se em cinzas de ternuras por haver, de sonhos por existir, e ainda de ilusões nunca vencidas em espaços que permanecem assim intocados...
.
Livre de sabores ou saberes antigos, virgem de expectativas de conquistas ou fracassos, o sentido do voo no som gira no corpo que conduz a alma no caminho de casa; aí onde sempre acabo por chegar porque não a convoco _ esse é o tempo que me faz dona sem bens nem males, é o espaço que não tenho que preencher, sem fronteiras com céus nem infernos, finalmente rodando e rodeando a festa de não viver, não saber, não querer sequer saber, rindo da ignorância de limites, preconceitos, ideias, pensamentos, separação, desejo, morte ou vida...
.
Aqui eu sou em luz e em penumbra...
.
.
.

1.8.08

.
.
O sopro do vento arqueia os sons em insistente melopeia rondando os cantos, esquivando esquinas, penetrando frinchas na atenção que pretendo dar à procura de um lugar; não, não para fugir a sentir; são elas, as sensações, a pedir tapete de existência no faz de conta de traços rasgando claustros de invotados silêncios.
.
O sopro do vento arqueia os reflexos de cor perdida no brilho do sol que, ele sim, enfuna as velas da embarcação que ressalta, em gozo de cavaleiro que experimenta montada nova, com arranques de paixão que deixam em redor toda a miríade de explosões de salpicos, puro oceano em festa de fogo solto sem artifício, arco-íris de salitre entrando à vontade na boca que não sabe nem quer fechar-se...
.
O sopro do vento arqueia a sombra da vontade que não quis ser terreno de conquista; ruge e ralha e encrespa o dorso dos sentimentos que lutaram por ter voz até a perderem, dando lugar aos silêncios lancinantes que ninguém pôde escutar.
.
O sopro do vento arqueia em verdes tonalidades de eternos afagos os ramos das árvores raras nos caminhos do tempo... e traz o aroma acre e agreste de campos queimados de sol pesado, sem dó nem piedade...excepto perante a genuína hospitalidade dos arcos de folhas resistentes e acolhedoras...durante os breves momentos de passagem...
.
O sopro do vento arqueia a hesitação entre o ir e o ficar; quebrando-a, ela perfila-se agora como pequenos traços, curvas e arcos, que me empurram de si próprios até...
.
.