25.2.09




Fui beber azuis e verdes, encher os olhos daquela cor-de-águas que me completa nos tempos nem-com-nem-sem-alegrias, e que concentra um pouco desse segredo insuperável que me traz acima das pedras de qualquer caminho, quando a verdade inunda todo o espaço e desfaz qualquer conceito de existência de ilhas.

Não fiquei defraudada: de espelhos a sombras a jades a jardins, a todas as fantasias que a ausência dele me permite, também em presença eu tive: o mar era a cor, e estava ali, e era quase igual ao dos sonhos, das fotos de colecção, de , eu sei lá!...

Mas raro foi o momento em que em verde transparente se ergueu, cristalizado, quase suspenso no tempo e entre as paredes de ar e luz; na verdade, o mar estava a modos que quase domado.

Apurei o ouvido, quase estendi a orelha no sentido da última onda que pudesse vir do horizonte. Em vão esperei ouvir a vaga mais distante que por norma venho escutar, com todo o assombro dos conselhos, prenúncios ou sortilégios que consigo dela obter.

Na realidade, o que escutei foi o rumor da fervura das línguas de ondículas sobre a areia da praia: mas não vinha de longe, apenas ao longo…

Pois, o mar estava mesmo a desistir-se; talvez apenas a entrar naquele ponto morto sem maré vai nem maré vem; ou então, muito simplesmente, estava a tentar ouvir o silêncio, forçado que foi a conviver com assédios e enchentes, marés-cheias de gentes por estes dias de sol e de folias _ e de que o inverno o desabituara…

Não importa; foi então como um pecadilho, assim, saboroso: o mar foi um pouco _ mais _ meu, como eu, e comigo.


2.2.09

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Chego e espero.
Aguardo que venham. Eu convoquei-as, inocentes do peso que lhes destino. Não é tão grave que lhes atribua uma missão, longe disso; ao fim e ao cabo, trata-se apenas de mim, não há que dramatizar…
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Acontece-me cada vez mais frequentemente, esta noção da auto-desistência a meu favor _ sei que parece que brinco... mas é apenas artimanha, daqueles pequenos truques que me ritualizam o amanhecer dos dias, não vá algum pedaço mais inóspito do terreno das horas abrir-se em abismo por esconjurar.
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E agora que tenho dados suficientes para converter essa apenas suspeita em generalidade garantificada pela frequência (sei, é apenas empirismo, mas o que se há-de fazer…) posso tornar essa quase certeza numa força de afoiteza, pois cada vez me sinto mais próxima da desistência da culpa como matéria-prima de tantos dos meus actos e opções (será que posso chamar-lhes desactos, desistidos que são eles também de qualquer apreço por desforras?)
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É a mim que procuro ouvir, na leitura das palavras que deixo pingar sobre o faz-de-conta-que-é-papel, que me apressei a colorir de preto e onde busco que as letras surjam em tom de luz. Também foi há não demasiado tempo que aprendi que muitas vezes algumas bocas não fazem mais do que deixar sair as palavras que cada um deveria estar a ouvir, em vez de… atirar. Será o inconsciente de alguns mais consciente do que a sua consciência?? Pano para mangas… mas os meus braços são pequenos. Adiante…
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Pois este efeito aparentemente narcisista que as palavras também possuem de se lançarem em mal disfarçados jogos em torno de espelhos poderá agora servir-me _ elas já cumprem tantas tarefas, porque não serem a voz que não consigo fazer sentar-se nem no ombro nem junto ao pavilhão auditivo, pese embora serem esses lugares de profunda sensibilidade, talvez com mais propriedade, vulnerabilidade, quando se trata de terem de lidar com proximidades de indesejados ruídos ou agitação.
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E não sou muito exegeta no que toca ao nível de língua, ortografia pré ou pós-acordo; basta-me que se façam cúmplices botões, singela companhia, e se deixem escutarem-me…
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