3.5.09
11.3.09
25.2.09
Fui beber azuis e verdes, encher os olhos daquela cor-de-águas que me completa nos tempos nem-com-nem-sem-alegrias, e que concentra um pouco desse segredo insuperável que me traz acima das pedras de qualquer caminho, quando a verdade inunda todo o espaço e desfaz qualquer conceito de existência de ilhas.
Não fiquei defraudada: de espelhos a sombras a jades a jardins, a todas as fantasias que a ausência dele me permite, também em presença eu tive: o mar era a cor, e estava ali, e era quase igual ao dos sonhos, das fotos de colecção, de , eu sei lá!...
Mas raro foi o momento em que em verde transparente se ergueu, cristalizado, quase suspenso no tempo e entre as paredes de ar e luz; na verdade, o mar estava a modos que quase domado.
Apurei o ouvido, quase estendi a orelha no sentido da última onda que pudesse vir do horizonte. Em vão esperei ouvir a vaga mais distante que por norma venho escutar, com todo o assombro dos conselhos, prenúncios ou sortilégios que consigo dela obter.
Na realidade, o que escutei foi o rumor da fervura das línguas de ondículas sobre a areia da praia: mas não vinha de longe, apenas ao longo…
Pois, o mar estava mesmo a desistir-se; talvez apenas a entrar naquele ponto morto sem maré vai nem maré vem; ou então, muito simplesmente, estava a tentar ouvir o silêncio, forçado que foi a conviver com assédios e enchentes, marés-cheias de gentes por estes dias de sol e de folias _ e de que o inverno o desabituara…
Não importa; foi então como um pecadilho, assim, saboroso: o mar foi um pouco _ mais _ meu, como eu, e comigo.
2.2.09
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Chego e espero.
Aguardo que venham. Eu convoquei-as, inocentes do peso que lhes destino. Não é tão grave que lhes atribua uma missão, longe disso; ao fim e ao cabo, trata-se apenas de mim, não há que dramatizar…
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Acontece-me cada vez mais frequentemente, esta noção da auto-desistência a meu favor _ sei que parece que brinco... mas é apenas artimanha, daqueles pequenos truques que me ritualizam o amanhecer dos dias, não vá algum pedaço mais inóspito do terreno das horas abrir-se em abismo por esconjurar.
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E agora que tenho dados suficientes para converter essa apenas suspeita em generalidade garantificada pela frequência (sei, é apenas empirismo, mas o que se há-de fazer…) posso tornar essa quase certeza numa força de afoiteza, pois cada vez me sinto mais próxima da desistência da culpa como matéria-prima de tantos dos meus actos e opções (será que posso chamar-lhes desactos, desistidos que são eles também de qualquer apreço por desforras?)
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É a mim que procuro ouvir, na leitura das palavras que deixo pingar sobre o faz-de-conta-que-é-papel, que me apressei a colorir de preto e onde busco que as letras surjam em tom de luz. Também foi há não demasiado tempo que aprendi que muitas vezes algumas bocas não fazem mais do que deixar sair as palavras que cada um deveria estar a ouvir, em vez de… atirar. Será o inconsciente de alguns mais consciente do que a sua consciência?? Pano para mangas… mas os meus braços são pequenos. Adiante…
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Pois este efeito aparentemente narcisista que as palavras também possuem de se lançarem em mal disfarçados jogos em torno de espelhos poderá agora servir-me _ elas já cumprem tantas tarefas, porque não serem a voz que não consigo fazer sentar-se nem no ombro nem junto ao pavilhão auditivo, pese embora serem esses lugares de profunda sensibilidade, talvez com mais propriedade, vulnerabilidade, quando se trata de terem de lidar com proximidades de indesejados ruídos ou agitação.
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E não sou muito exegeta no que toca ao nível de língua, ortografia pré ou pós-acordo; basta-me que se façam cúmplices botões, singela companhia, e se deixem escutarem-me…
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19.1.09
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Por sentir ser um momento de reafirmar-me, e para me garantir de que não há fuga inconsciente ou qualquer sopro de culpa por não ser verdadeira, em mim te chamo e assim registo:
Lágrimas _ para quê?
A ti tenho, para me lavares os olhos, purificares os pulmões da alma, transmutares revoltas ou mágoas...
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Até para seres meu sal e temperares meus parcos _mas incontornáveis _momentos de terra te tenho, cúmplice complemento, e matriz: o hiper-eu do outro lado do espelho espelha-se certamente no avesso de ti _talvez minha primeira face.
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16.11.08
13.9.08
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Doce, doce é a luz que te acode, abraço anti-dor de um despertar tardo, suave o afago, é regaço, sorriso e paz …
Doce, doce é o olhar do mar, sedução ou calma, desafio estático ao longo dos nortes … magia tão forte salva qualquer medo de te perderes a sul …
Doce, doce é a leve mola de música em fonte, feitiço que irrompe do centro do corpo, eco e arrepio, vida e sabor de dentro afora entre chão e nuvem … e o mundo é teu …
Doce, doce é a palavra amiga, barreira sentida contra qualquer mágoa por aí perdida ou o gosto amargo de um tempo ilhéu ... e te traz à vida, mais forte, tão frágil _ nada importa mais!
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1.9.08
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Mais, ela é um atraso no meu estar, repuxa-me ao revés de qualquer estado, estica a minha capacidade de negar ênfase e importância à expectativa _ ela desmerece-me, perante mim própria.
Já o suspeitava: ela é um dos rigorosos observadores, ou até mesmo O avaliador-mor que antevejo de cada vez que me proponho um novo plano de incursão em novos territórios de auto-consciência ou, simplesmente, uma operação de… beneficiação.
Todas as aprendizagens de técnicas mais ou menos elaboradas, todos os saberes a que renego influência externa se conjugam, apenas para me deixar ficar mal _ porque na espera, vergonhosamente, eu… desespero.
O único modo de escamotear essa sensação de derrota em pleno fogo da inacção é disfarçar, numa aparente calma, tão profundamente bovina, que não consigo deixar de me sentir humilhada pela aproximação a que a mente me traz.
Sou, inclusive, capaz de inventar afazeres para entretecer neles as impaciências imperdoáveis, para os tais momentos de esticanço daquela bolha de tempo que não tem então direcção nem percurso habitáveis; claro que as verdadeiras ocupações a aguardar resposta continuam a chamar-me sem chegar a ouvidos disponíveis: a e.s.pe.r.a ocupa todos os verdadeiros sentidos… que dela deveriam ter permanecido ausentes.
A pose zen é, continua a ser uma aparência de aproximação à utopia _ tal como a meditação zazen continua a soar a não mais do que isso (ah, que terrível discípulo de técnicas rigorosas que eu sou!; pior, adoro contornar os aspectos bicudos e os ângulos agudos dessa _ e algumas outras questões _ conferindo-lhes índoles que me aprazem mais como efeito). Assim teimo em denominar, em aproximação a uma postura zen, algo que considero desprovido de regras rígidas e claras _ à luz do senso-comum, embora contendo um não-sei-o-quê de ordem natural na sua essência...
E deste modo ou daquele eu, então e também, acabo sempre por lá chegar… mas continuo a debater-me neste problema exemplar ainda agora presente: a espera atenta ao meu sossego…
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27.8.08
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Saudades…
Saudades, sim. Deste, daquele, daquela, daquilo, de então…ah, mas sobretudo, de m.i.m! Ou melhor: de mim então!
Na realidade, o que sentem é a falta de como se sentiam … ou os faziam sentirem-se, em determinada altura da sua vida. Simplesmente isso. E sofrem, com o que dão por final, se não finado.
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23.8.08
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É bela e repousante a ideia-teoria _ daquelas que o Oriente antigo ainda consegue oferecer como algo novo a quem se levanta por onde o sol se deita _ de que o Universo segue indiferentemente o seu curso, sem escolhas e sem desvios, num movimento que se desenrola harmoniosamente e em direcção, se tal fosse possível, a um destino de Harmonia; por conseguinte, quem consiga “apanhar boleia “, na capacidade de viajante que dele participa, seguindo o rumo naturalmente, com o mínimo de conflito e, portanto, de atrito, viajará na mesma conformidade a essa harmonia…Lindo, não é?
Pois quanto a mim, um passo decisivo, pelo seu peso (terei que invocar algo como o próprio Genesis??) nesta contínua, muito deliberada auto-construção do quotidiano próprio, é a atenção ao peso e valor das palavras . Considero essencial e básico que se cuide da escolha das palavras. Há quem lhe dê nomes de ferramentas de auto-desenvolvimento, terapias com fundamentos psicológicos. O rótulo certo não é importante; o modo como é usado é a base do seu efeito, seja treino autogénico ou aplicação mântrica. Também lhe podem chamar, muito simplesmente, pensamento positivo(aqui reforçado na expressão) ou pensamento mágico(como já ouvi que denominam em áreas da psiquiatria...) _ aí já enraízam muitas superstições. Mas eu não sou supersticiosa: dizem que dá azar.
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