2.8.09

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Deixei-me diluir no mar sem nomes; fiz-me esquecida de palavras que pintassem dias de aguarelas por demais desmaiadas.
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Dissolvi as emoções perante os silêncios sem resolução que não as souberam enfrentar...
Despedira o mar, despedira-me do centro da palavra, alma do sentido da realidade sonhada
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Reneguei o sonho na despedida da inocência da ilusão permitida.
Recusei a palavra sentindo-me rejeitada pela graça da entrega ao nome.
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Entreguei-me à recusa de mim em outro... eu recusara a ilusão de outro, dar-lhe assim vida.
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A palavra não veio e não a chamei; aguardei ainda que me gritasse no centro do corpo, que me garantisse que o sonho continuava a prender-nos ao papel dos dias iluminados pelo despertar na luz dos olhos fechados.
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A inverdade submergiu tudo. A realidade não é transparente, a sua opacidade reafirma a verdade do sonho.
Vou-me sonhar sonhada.
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(30/08/07)"

3.5.09

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A minha prece tece-se de fios de luar e de enredos de água pura, rios que brotam da nascente que só conhece a sede de pássaros azuis.
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A minha prece tece-se do orvalho das pétalas de dor entrançadas nos sorrisos que contornam canteiros e ninhos nos jardins do paraíso.
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A minha prece aninha-se na quietude morna de um regaço de ternura e doces mãos, vozes mansas a ensinar amor.
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A minha prece prende-se nas lâminas dos contos com música, uma fonte de lábios de voz pausada a cantá-los ao revés; a vida fluía assim, um anjo de mármore a velava.
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A minha prece tece-se dos voos brancos na descoberta de caminhos e dos portais que se abrem ao fecho de postigos com grades.
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A minha prece tece-se de todos os eus que transporto, fontes e desertos, ou apenas brando sonho do melhor de mim que sem tempo viria a ser...
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11.3.09

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Sofro as palavras que despeço sem aviso, que solto sem gesto de amparo, que lanço sem cuidar de almofadas anti- choque.
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Sofro as palavras que não conhecem a profundeza do ninho que sonharam antes de ser, porque eu não permiti que elas tivessem tempo de vir de tão longe...e vão enganadas no caminho, sempre, porque sem a rota que vem ensinada desde o coração, elas não têm força, será em vão a sua porfia.
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Sofro as palavras que não aprendi na melodia das vozes que gostaria de ter sabido que existia, antes de ter perdido lugar onde as recolher e embalar. Iriam crescer e dar sombra e longas respirações de paz e contentamento.
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Sofro as palavras que nasceram com freio e que de tão lentas não chegam por vezes a tempo de se cumprirem; estancam-se na mordedura dos lábios que não souberam desenhá-las em cores de finalidade.
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Sofro as palavras que sonhei existirem mas não tiveram abrigo no meu mundo de sentimentos guardados em espera de senhas indecifráveis...até se transformarem em palavras de outras bocas, sem tom nem coração.
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Sofro as palavras que não conseguem desafiar as barreiras de compreensões, bandeiras contaminadas por desejos de corações alheios aos sonhos do meu.
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Sofro as palavras cansadas de recantos fechados, em risco de se engasgarem ou sufocarem de silêncios impostos por regras seculares.
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Sofro as palavras que saltam falésias e precipícios sem rebates de pudores e viajam à frente de mim própria, atravessando escuridão e silêncios.
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Sofro, cansada, as palavras agrilhoadas a esta linguagem de atrasos, meros vermes na berma de crisálida das formas aladas que as virão substituir...para que eu não sofra as palavras que não conseguem ser pontes.
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25.2.09




Fui beber azuis e verdes, encher os olhos daquela cor-de-águas que me completa nos tempos nem-com-nem-sem-alegrias, e que concentra um pouco desse segredo insuperável que me traz acima das pedras de qualquer caminho, quando a verdade inunda todo o espaço e desfaz qualquer conceito de existência de ilhas.

Não fiquei defraudada: de espelhos a sombras a jades a jardins, a todas as fantasias que a ausência dele me permite, também em presença eu tive: o mar era a cor, e estava ali, e era quase igual ao dos sonhos, das fotos de colecção, de , eu sei lá!...

Mas raro foi o momento em que em verde transparente se ergueu, cristalizado, quase suspenso no tempo e entre as paredes de ar e luz; na verdade, o mar estava a modos que quase domado.

Apurei o ouvido, quase estendi a orelha no sentido da última onda que pudesse vir do horizonte. Em vão esperei ouvir a vaga mais distante que por norma venho escutar, com todo o assombro dos conselhos, prenúncios ou sortilégios que consigo dela obter.

Na realidade, o que escutei foi o rumor da fervura das línguas de ondículas sobre a areia da praia: mas não vinha de longe, apenas ao longo…

Pois, o mar estava mesmo a desistir-se; talvez apenas a entrar naquele ponto morto sem maré vai nem maré vem; ou então, muito simplesmente, estava a tentar ouvir o silêncio, forçado que foi a conviver com assédios e enchentes, marés-cheias de gentes por estes dias de sol e de folias _ e de que o inverno o desabituara…

Não importa; foi então como um pecadilho, assim, saboroso: o mar foi um pouco _ mais _ meu, como eu, e comigo.


2.2.09

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Chego e espero.
Aguardo que venham. Eu convoquei-as, inocentes do peso que lhes destino. Não é tão grave que lhes atribua uma missão, longe disso; ao fim e ao cabo, trata-se apenas de mim, não há que dramatizar…
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Acontece-me cada vez mais frequentemente, esta noção da auto-desistência a meu favor _ sei que parece que brinco... mas é apenas artimanha, daqueles pequenos truques que me ritualizam o amanhecer dos dias, não vá algum pedaço mais inóspito do terreno das horas abrir-se em abismo por esconjurar.
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E agora que tenho dados suficientes para converter essa apenas suspeita em generalidade garantificada pela frequência (sei, é apenas empirismo, mas o que se há-de fazer…) posso tornar essa quase certeza numa força de afoiteza, pois cada vez me sinto mais próxima da desistência da culpa como matéria-prima de tantos dos meus actos e opções (será que posso chamar-lhes desactos, desistidos que são eles também de qualquer apreço por desforras?)
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É a mim que procuro ouvir, na leitura das palavras que deixo pingar sobre o faz-de-conta-que-é-papel, que me apressei a colorir de preto e onde busco que as letras surjam em tom de luz. Também foi há não demasiado tempo que aprendi que muitas vezes algumas bocas não fazem mais do que deixar sair as palavras que cada um deveria estar a ouvir, em vez de… atirar. Será o inconsciente de alguns mais consciente do que a sua consciência?? Pano para mangas… mas os meus braços são pequenos. Adiante…
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Pois este efeito aparentemente narcisista que as palavras também possuem de se lançarem em mal disfarçados jogos em torno de espelhos poderá agora servir-me _ elas já cumprem tantas tarefas, porque não serem a voz que não consigo fazer sentar-se nem no ombro nem junto ao pavilhão auditivo, pese embora serem esses lugares de profunda sensibilidade, talvez com mais propriedade, vulnerabilidade, quando se trata de terem de lidar com proximidades de indesejados ruídos ou agitação.
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E não sou muito exegeta no que toca ao nível de língua, ortografia pré ou pós-acordo; basta-me que se façam cúmplices botões, singela companhia, e se deixem escutarem-me…
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19.1.09

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Sei que há quem não entenda: não explico, não me detenho sobre o assunto, também não lhe fujo; apenas digo, se tem de ser, em tom mais para o indiferente _para se saber que não é assunto que me interesse aprofundar: eu praticamente (já) não choro.
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Por sentir ser um momento de reafirmar-me, e para me garantir de que não há fuga inconsciente ou qualquer sopro de culpa por não ser verdadeira, em mim te chamo e assim registo:
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Lágrimas _ para quê?
A ti tenho, para me lavares os olhos, purificares os pulmões da alma, transmutares revoltas ou mágoas...
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Até para seres meu sal e temperares meus parcos _mas incontornáveis _momentos de terra te tenho, cúmplice complemento, e matriz: o hiper-eu do outro lado do espelho espelha-se certamente no avesso de ti _talvez minha primeira face.
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16.11.08

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ainda não é o momento de sentir que a porta está à vista.
ainda há algo a reter-me, que me enleia as pernas no caminho que não se divisa, um piso feito de fé e da esperança de não falharem estas duas fieis mas indistintas assistentes _ e nunca nada tão sólido quanto elas soube eu escolher por companhia...
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estranhamente, há um palpitar de antecipação que me traz apenas um pouco menos que confusa, talvez apenas mais disponível para ouvir o distante fantasma de um som de trombeta e de alerta por entre o silêncio escasso que se atreve a desrespeitar a quase contínua lei de ruídos e sinais de contradição que me têm cercado os dias
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aliás, nada mais poderá explicar as já quase consentidas náuseas a que o conflito entre tantos e tão díspares sinais me vota
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não há jejum, dieta ou fina iguaria que me distraia da indigestão que reina às portas da minha casca de pessoa em vertigem e torvelinho de excesso de oxímoros: que digestão poderia ser levada a bom fim em tais condições?
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mas o voo sempre foi capaz de se imiscuir em qualquer pequeno espaço de silêncio e de desaperto do coração em busca de maiores causas _ ou da mais pequena forma de beleza que o suscitasse...
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e a beleza existe nos olhos de quem olha, no coração, até de quem nem a espera; ela me enleva _ mas, sobretudo, ela me eleva
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e vai de continuar a porfia de não desistir de mim, de sonhar por que o sonho me sonhe... que de vida é quanto sou.
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13.9.08

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Doce, doce é a luz que te acode, abraço anti-dor de um despertar tardo, suave o afago, é regaço, sorriso e paz …

Doce, doce é o olhar do mar, sedução ou calma, desafio estático ao longo dos nortes … magia tão forte salva qualquer medo de te perderes a sul …

Doce, doce é a leve mola de música em fonte, feitiço que irrompe do centro do corpo, eco e arrepio, vida e sabor de dentro afora entre chão e nuvem … e o mundo é teu …

Doce, doce é a palavra amiga, barreira sentida contra qualquer mágoa por aí perdida ou o gosto amargo de um tempo ilhéu ... e te traz à vida, mais forte, tão frágil _ nada importa mais!
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1.9.08

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A espera atenta ao meu sossego.
Mais, ela é um atraso no meu estar, repuxa-me ao revés de qualquer estado, estica a minha capacidade de negar ênfase e importância à expectativa _ ela desmerece-me, perante mim própria.

Já o suspeitava: ela é um dos rigorosos observadores, ou até mesmo O avaliador-mor que antevejo de cada vez que me proponho um novo plano de incursão em novos territórios de auto-consciência ou, simplesmente, uma operação de… beneficiação.

Todas as aprendizagens de técnicas mais ou menos elaboradas, todos os saberes a que renego influência externa se conjugam, apenas para me deixar ficar mal _ porque na espera, vergonhosamente, eu… desespero.

O único modo de escamotear essa sensação de derrota em pleno fogo da inacção é disfarçar, numa aparente calma, tão profundamente bovina, que não consigo deixar de me sentir humilhada pela aproximação a que a mente me traz.

Sou, inclusive, capaz de inventar afazeres para entretecer neles as impaciências imperdoáveis, para os tais momentos de esticanço daquela bolha de tempo que não tem então direcção nem percurso habitáveis; claro que as verdadeiras ocupações a aguardar resposta continuam a chamar-me sem chegar a ouvidos disponíveis: a e.s.pe.r.a ocupa todos os verdadeiros sentidos… que dela deveriam ter permanecido ausentes.

A pose zen é, continua a ser uma aparência de aproximação à utopia _ tal como a meditação zazen continua a soar a não mais do que isso (ah, que terrível discípulo de técnicas rigorosas que eu sou!; pior, adoro contornar os aspectos bicudos e os ângulos agudos dessa _ e algumas outras questões _ conferindo-lhes índoles que me aprazem mais como efeito). Assim teimo em denominar, em aproximação a uma postura zen, algo que considero desprovido de regras rígidas e claras _ à luz do senso-comum, embora contendo um não-sei-o-quê de ordem natural na sua essência...

E deste modo ou daquele eu, então e também, acabo sempre por lá chegar… mas continuo a debater-me neste problema exemplar ainda agora presente: a espera atenta ao meu sossego…
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27.8.08

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Saudades…
Saudades, sim. Deste, daquele, daquela, daquilo, de então…ah, mas sobretudo, de m.i.m! Ou melhor: de mim então!
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E é isso que na realidade leva (quase) toda a gente a confundir-se e atolar-se num chamado e supostamente doce sentimento de nostalgia, de perda, que não é mais do que uma hedonista e egoísta sensação, quase tão vã e perniciosa, na sua ignorância e inconsciência, como a inveja, aquele monstrinho verde que morde as entranhas de quem não quer admitir-se presa de uma forte admiração por outrém…no seu negativo.( E Deus me livre de ser assim “admirada”! ) . Mas não vamos por aí, que é longo e perdido esse atalho.
E então vou tentar explicar um pouco melhor, talvez mais caridosamente, o ponto de vista que aqui defendo. E porquê? Simples: porque sofro quando vejo sofrimento que considero desnecessário _ na maior parte dos casos, claro _ na forma de lidar com o "passado".
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É certo também que reconheço ser um acto de rebeldia a minha rejeição do uso comum dessa palavra tão acarinhada como símbolo emblemático da “nossa” cultura. Eu também concordo que é bonita: ondula emoções esquivas pela sibilante adiante, presta-se a ser saboreada…E eu digo isto porque gosto de poesia e, precisamente, saboreio os aspectos físicos e musicais que algumas palavras se prestam, plasticamente, a arvorar. Mas causa-me uma certa impaciência o tom auto-mortificante com que as pessoas se agarram, pior, se colam a factos passados, incluindo, nesses flashes de inexistências intransigentes, a presença de outros, quando se deviam concentrar na própria consciência das sensações que esses instantâneos _ por vezes autênticas reconstruções de verdades que vão mudando de perspectiva consoante as luzes de enfoque..._ lhes provocam.
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Assim, alguns ajoujam-se sob o fardo de autênticos "cadáveres" de memórias a que se agrilhoam e que lhes tolhem o passo em direcção à vida, e que nem sequer são, geralmente, as memórias queridas que gostariam de ver permanecer... mas que não deixam ficar...
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E então há os que simplesmente recusam a si próprios e às então queridas memórias a oportunidade de terem um futuro, fazendo-as "presente"! E esquecem-se de olhar em frente, sempre virados para "trás", mergulhados em sombra _ por culpa das tais "saudades"...
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Na realidade, o que sentem é a falta de como se sentiam … ou os faziam sentirem-se, em determinada altura da sua vida. Simplesmente isso. E sofrem, com o que dão por final, se não finado.
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Mas a memória é isso: algo que permanece… uma verdadeira prenda , sempre à disposição de ser recriada... E poderiam então verificar que o que davam como passado e acabado, se encontra nesse i.n.s.t.a.n.t.e com elas, na sua p.r.e.s.e.n.ç.a, e talvez acordassem para o significado real que as palavras teimam _ às vezes sem resultado, e sem culpa própria _ transportar, se nelas atentarmos verdadeiramente, se usarmos a própria reflexão, abdicando um pouco mais do seu uso leviano e de frases feitas, que acabam por entregar vazios, perdendo-se nestas trocas entre bocas e corações e mentes, sem serem pontes de s.e.n.t.i.d.o.s entre as pessoas…

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23.8.08

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É bela e repousante a ideia-teoria _ daquelas que o Oriente antigo ainda consegue oferecer como algo novo a quem se levanta por onde o sol se deita _ de que o Universo segue indiferentemente o seu curso, sem escolhas e sem desvios, num movimento que se desenrola harmoniosamente e em direcção, se tal fosse possível, a um destino de Harmonia; por conseguinte, quem consiga “apanhar boleia “, na capacidade de viajante que dele participa, seguindo o rumo naturalmente, com o mínimo de conflito e, portanto, de atrito, viajará na mesma conformidade a essa harmonia…Lindo, não é?
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A consciência e, sobretudo, a deliberada adesão a tal filosofia impõe opções de actuação e que têm a ver com intervenções tendentes a restaurar algum do equilíbrio que notoriamente falta ao cenário dos dias conforme se passam _ toda a gente vê, não é verdade?
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Pois quanto a mim, um passo decisivo, pelo seu peso (terei que invocar algo como o próprio Genesis??) nesta contínua, muito deliberada auto-construção do quotidiano próprio, é a atenção ao peso e valor das palavras . Considero essencial e básico que se cuide da escolha das palavras. Há quem lhe dê nomes de ferramentas de auto-desenvolvimento, terapias com fundamentos psicológicos. O rótulo certo não é importante; o modo como é usado é a base do seu efeito, seja treino autogénico ou aplicação mântrica. Também lhe podem chamar, muito simplesmente, pensamento positivo(aqui reforçado na expressão) ou pensamento mágico(como já ouvi que denominam em áreas da psiquiatria...) _ aí já enraízam muitas superstições. Mas eu não sou supersticiosa: dizem que dá azar.
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Eu quero pensar em construir a minha Sorte. Sei que conhecimentos de velhas culturas se transportaram ao longo dos tempos, mas também há conhecimentos que existem sem conhecerem o gosto da dúvida e assim se afirmam. Sei _ oh, e como! _ de quem se ganhou, em territórios próprios que mapeou por caminhos solitários mas que asseguram que é assim, e impõem-se com a certeza da bússola interior. Os dias são feitos de dúvidas e incertezas, desafios, perdas e ganhos; portanto, também têm de ter lugar para certas…certezas. E escolho… não escolher algumas palavras dentro de uma área de segurança, da minha proximidade… e fazer de outras a estrela dos meus dias… para que continuem a ter luz, e a fazerem-se para conhecer e, grande ambiciosa!, dar a conhecer…luz.
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19.8.08

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Deixei-me diluir no mar sem nomes; fiz-me esquecida de palavras que pintassem dias de aguarelas por demais desmaiadas.
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Dissolvi as emoções perante os silêncios sem resolução que não as souberam enfrentar...
Despedira o mar, despedira-me do centro da palavra, alma do sentido da realidade sonhada
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Reneguei o sonho na despedida da inocência da ilusão permitida.
Recusei a palavra sentindo-me rejeitada pela graça da entrega ao nome.
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Entreguei-me à recusa de mim em outro... eu recusara a ilusão de outro, dar-lhe assim vida.
A palavra não veio e não a chamei; aguardei ainda que me gritasse no centro do corpo, que me garantisse que o sonho continuava a prender-nos ao papel dos dias iluminados pelo despertar na luz dos olhos fechados.
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A inverdade submergiu tudo. A realidade não é transparente, a sua opacidade reafirma a verdade do sonho.
Vou-me sonhar sonhada.
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(30/08/07)

18.8.08


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Desço por mim abaixo e…
Não, desta vez não o vou fazer. Deixo passar o baque surdo da hesitação a bater no fundo do último escrúpulo, ignorando-o e dando-lhe a entender que desta vez não lhe dou cobertura, muito menos primazia _ e continuo.

Chega de rebates de consciência retardada, mais do que atrasada, antes pretendendo atrasar-me a custo de cadeados de chumbo em volta do tórax. Ora ainda bem que têm sido um pouco abalados, remexidos talvez mesmo, a ponto de quebrarem nos elos que a ferrugem _ porventura a mais antiga _ mordeu

Poderá acontecer que ainda arraste alguns, pois que os mais recentes elos não quebraram, aderem _ e pesam _ ainda. Não faz mal. O que não me mata faz-me mais forte. Todos os cadáveres de mim que ficaram pelo caminho o atestam: viram-me continuar a avançar.

As fraquezas deram lugar a vontades que, se não são férreas, ainda bem! Pois agora sei que o mais importante é evitar a rigidez.

Flexível na mente, flexível no corpo _ poderei convencer os dois a colaborarem e reforçarem-se? De estratégias se fazem as histórias de quem porfia, mas anda.
Wu Wei aqui, assim ou assado ali…

Assim seja, assim se faça… para o bem de todos nós.
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12.8.08

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O homem arrastava a solidão no bater soturno das chinelas gastas, o cheiro forte transpirando de humanidade calcada em depósitos fechados e esquecidos da pureza do sol claro, da firmeza acolhedora de uma terra-mãe e, mais ainda do que de tudo o resto, da doçura líquida que sozinha limpa os corpos até à alma, que nem uma muda de roupa lavada.
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Havia certamente o mar, ali tão perto, mas que cobrara outras duras distâncias em moeda de sonhos desfeitos, e da água apenas lhe deixara o salitre, em polvilho sobre os cabelos sombrios, de mistura com a areia levantada por ventos alheios à sua música.
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Talvez sobrasse ainda algum nos sulcos do rosto onde, no entanto, já não chegaram a tempo de encontrar lágrimas, luxo de quem pensa que sente, comprazendo-se em amontoar sentires, com chão e tecto e paredes.
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11.8.08

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É uma febre que te apanha. Não há engano, sabes perfeitamente que foste apanhada, respingada, contaminada.
De nada serve lembrares, em tua defesa, o enleio costumeiro a veres desvendado qualquer leve indício sobre interiores que não gostas de dar à vista: falta de defesas é o que demonstras, perante este acesso febril, sintoma certo de fraqueza do sistema que pensavas andar a enrijecer, entre treinos de vontades e complacências…mal-medidas.

Não serve de muito tentares colocar a balança a teu favor _ se queres mesmo fazer um balanço a frio da questão _ invocando o humor de circunstância, dando-lhe nome de personagem mitológica, quando sabes perfeitamente que abriste portas a que factos tais _ ou circunstanciais... _ apenas comprovem que és tu! quem tem descurado a maneira certa de escreveres ou corrigires a vida: olha como os nomes conferem!! Vá lá, conceda-se-te que não é exactamente um protagonismo no momento, mais um sinal de atenção _ como a tal febre!
Daí que talvez o tratamento não tenha que ser algo de terrífico ou radical; pois, quanto menos invasivo, melhor! Mas afinal, como te atreves a mencionar sequer essa palavra, se a questão se coloca precisamente por uma questão de invasão…de espaços, tão ferozmente resguardados, até há tão poucas…peles, e agora tornas-te, do pé para a mão, em verdadeira vira-…pele!!!

Também não se vive fugindo à vida; talvez as tais aprendizagens que constroem o crescimento se façam sobre as curvas e contornos menos angulosos de planos traçados à mão levantada, mais sensível e intuitiva que os rígidos traços de réguas e esquadros _ eu já suspeitava que quase tudo se desenrola em espiral. Vou, portanto, acreditar nisso; é uma ideia que o momento me traz, e enquanto germinar em ramos _quiçá flores, se chegar a ser ambiciosa _ que por aí vão estendendo sombra, será a minha escolha.

Boa altura para a tisana de recurso: sacrifiquem-se as inocentes flores ao desmando de quem pretende agora com elas pôr cobro a febres de…viver.
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8.8.08

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A noite não chegou…roubou o dia e porventura vangloria-se, pairando por aí, por fora da janela, deixando apenas alguma luz para se poder verificar que, afinal, nada fica realmente para ver no apertado embrulho do nevoeiro cinzento.

A noite não chegou…mas também o dia não se despediu; mal sei se não apareceu, simplesmente, ou se foi desaparecendo sem rasto de intenções que marcassem lugar no passeio das horas sobre os mais-que-fazer habituais.

A noite não chegou…apenas enviou um silêncio de encomenda, não genuíno e cristalino _ nota-se logo, pois que permanecem as sombras de sons esganados sobre o piso humedecido lá de fora, entre os rodados de máquinas invisíveis _, como um prenúncio de algo que ficou por saber.

A noite não chegou…mas, de algures, enviou já, também, as longas e ondulantes mortalhas de todos os feitos que o dia deixou esquecidos para trás de si, quando se desvaneceu sem palavra ou gesto de adeus.

A noite não chegou…mas o manto violeta que se vai estendendo transporta entre aglomerados de névoas alguns hesitantes filhotes de sois, desprovidos de força, mas que tentam imitar o cintilar de vaga-lumes…talvez sejam eles os lanternins de silenciosa carruagem que passa a buscar a noite…ou foi o dia que a roubou?
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7.8.08

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Hoje o mar veio a banhos, fazer férias. Deixou-se inclusive contaminar de falta de limpeza, de desordem na chegada das ondas, enrolando-se à toa e sem direcção definida nos corpos das gentes que as acolhiam.

Encheu a praia do reboliço de espumas tintas de sobejos dos lodos que, de mistura com o sargaço, também decidiram vir espreitar os céus. Estes, por sua vez, nem cor com nome de si mostraram: entre nuvens arrogantemente acasteladas mas votadas aos cantos, desfiavam-se em mantitas mal alinhavadas das faixas de rastos indefinidos que por vezes se entrecruzavam em brancos sujos. No entanto, todas contribuíam para que ainda pudesse saudar um sol pálido, de olhar um tanto turvo, como quem não sabe de que latitudes se vestir…

Enfim, foi o dia possível e a praia recebeu o mar sem grandes efusões, nem bandeiras hasteadas, deixando o vento escasso e pusilânime tratar do caso, ondulando a esmo algumas das toalhas que tingiam o areal patinhado.
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Porque tarda tanto o tempo das gaivotas?!?
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6.8.08

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Saí atrás da ideia de não me render à inacção.
Primeiro voguei na estranheza do piso e dos ruídos tão perto, tão perto de vertigem. Obriguei o movimento a ir atrás do olhar e a prosseguir no rasto de cada passada. Detive-me na vibração arrepiada das areias que passaram sob cada sola mas segui atrás do barulho distractivo das folhas da última árvore, roçagando-se em inocentes afagos mútuos que sussurraram a cantiga suave em que respirei, mais à vontade.

Estaquei quando os olhos subiram na direcção do lado ensolarado da copa, abri lugar a uma respiração mais funda, saboreei o toque de beleza da florinha aberta em cinco pétalas de adorável frescura rósea _ e o verde em volta do mais pequenino botão sossegou-me.

Retomei o avanço, agora já sem cuidar dos riscos das pedras do chão, o ouvido mais treinado a separar os sons provenientes dos meios naturais como dos artificiais. Entretanto, já quase chegara: tinha-se-me desvendado a finalidade última da minha saída e nada mais pensava procurar para além dessa agora conhecida demanda, mais importante do que qualquer outra primazia anterior: ia ouvir a música da mais longínqua onda que o oceano guardava para mim!

Tudo o que ouvi, atravessei, olhei, me olhou, consta como pálido figurante no quadro maior que o dia pintou então em mim _ e só cerrou a caixa de cores e pincéis quando a ouvi: sétima sobre sétima até perder a conta e não haver números que chegassem _ suspendi-me no canto que nenhuma sereia seria capaz de entoar: o som da onda mais longínqua viajou até mim…e nela eu viajei para além de mim.
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4.8.08

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Não há ausências; apenas espaços vazios, sem fronteiras de ir ou vir, por vezes sugerindo na sua quase cegueira esbranquiçada leves ondulâncias semelhando mapas suspensos de ilhas encantadas em brumas diáfanas, nunca atravessadas por barcos que se perdessem, ou espantos de fantasmas por domar, nem viagens escorrendo nostalgias ou lágrimas de rios sem leito, sem sulcos verdejando bolores…
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Não há ausências; apenas ecos de finíssimos fios de significados pervertidos; de rendas de gestos nunca evocados, do quase calor de palavras perdidas nos territórios onde aves de eternidade escolhem pousar…
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Não há ausências: eu, tu, tudo e nada, coexistindo na paz que nos precedeu, latente de inocências e desvarios, com pressa a anunciar-se como destino sem presenças, sem princípio, sem fim.
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3.8.08

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Intensidade…
Sim, meu namoro é constante. Paixão obsessiva de um ser de água condenado a completar-se no fogo. Não há dia que amanheça em mim, antes ainda da aurora nascer na luz das pálpebras, que o meu desejo não desperte e não se volte na direcção dessa…cobiça.
Não, não se trata de porfia de amor-não-correspondido. Apenas…desencorajado, assim que, logo atrás, a razão abra apenas um olhar a dar-se conta e…

Ah, viva o entusiasmo!!, sim, mas é só em breves instantes que ele consegue impelir-se, acompanhar-me no impulso que logo salta e …mal pouso o pé nesse elevador que célere me conduz ao plano dos enlevos … pronto!: soam de imediato os alarmes _ e é só descer por aí embora, carregada com o desapiedado lastro da noção inculcada a golpes de dor, repetida vidas e vidas sem contos, de que entusiasmo é exagero que pagarei caro, mais cedo ou mais tarde e com juros redobrados. E de quê ?? Pois, o mal é que fico sem querer saber. Os vestígios de amargos venenos amordaçam falares ou tentos de raciocínios onde largos paredões não se deixaram abater. E enquanto essas cidadelas de freios não cederem a cerco de convincente conquista, formular desejos é…uma canção.
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